Duas rodas bastam
Quando você compra um guia de viagem e espera que ele te conte o que há de mais interessante para se ver num país, a possibilidade de o que está escrito não atender as expectativas é sempre grande. Que bom. Para viajar pelo Sudeste Asiático, comprei um Lonely Planet de viagens longas e baratas. Daqueles que te fala o que não dá para deixar de ver e pronto. Peguei emprestado mais um guia japonês – como sempre, cheio de restaurantes caros, spas e shoppings – e lá fui.
Falavam os dois livros que o Vietnã é um lugar de muitas florestas, mercados baratíssimos e comidas gostosas. Tudo verdade. Mas nem de longe essas serão a minha principal memória vietnamita. Não. Do que vou me lembrar para sempre são motos, muitas motos, milhares, milhões, na maior parte de pequeno porte e visivelmente de baixo custo, vindas de todos os lados e carregando o país inteiro em seu lombo metálico.
Novos, velhos. Famílias inteiras. Namorados e amigos. Todo mundo está sobre duas rodas. No parque, os meninos abraçam as garotas só um pouco envergonhadas - ambos apoiados na motoca. Para ver a iluminação breguíssima de Natal, bebês e pirralhos vão prensados contra o corpo dos pais e irmãos maiores. Caixas, sacolas – até porcos inteiros, como mostra um cartão postal que comprei. Carrega-se qualquer coisa. Um guia turístico, em tom de piada com fundo de verdade, explicou: “a quantidade e a qualidade das motos equivalem ao nível da namorada. Moto barata chinesa, namorada feia. Moto cara japonesa, namorada bonita. Duas motos, duas namoradas”.
Em SP, eu odiava qualquer coisa que se movesse em menos de quatro rodas. Mas no Vietnã é diferente. Todos sem capacetes e em velocidade baixa, os motoqueiros – isto é, toda a população – não parece estar confinada no espaço autista que é o interior de um carro, sobretudo aqueles com janela de vidro fumê. As caras de todo mundo está lá, na sua frente, e é quase como se estivessem andando na rua. Num país em que o hábito é ficar de pernas para o ar sentado em cadeiras na rua, nada mais condizente. E que dá uma sensação interessante, boa até. Não sei se pra eles, mas pelo pra mim.

