31.7.07

Minha classe


Esse pessoal faz japonês comigo (ou fazia, pq hj foi a última prova. Luke, da Nova Zelândia, Chii Yii, de Cingapura, Eric, do Canadá, Julian, da Austrália, e Kuan, da Tailândia.

Legendas

As fotos aí embaixo são do hanabi (fogos de artifício) que eu fui ver com os tailandeses na semana passada. A menina é a Kuan, o gordinho é o Tam (sim, q nem eu), o mais escuro é o Rapii e o que sobrou é o Nek. O brigadeiro lá embaixo é o que eu dei de aniversário para a Kuan. Tive que pôr num potinho, pq tá tão quente que derrete tudo.

Hanabi com os tailandeses





30.7.07

Nem só a pobreza impera


Hj eu vi e ouvi coisas engraçadas. Ontem também.

1. Hoje eu fui com o Eric fazer compras de supermercado, pq o pobrecito não entende nada do que está escrito nas embalagens e me pediu ajuda pra traduzir. Estávamos andando pela seção de frutas (caríssimas, caro), quando eis que aparece uma...Melância quadrada! Nossa, mas que mundo é esse, negada. Acho que agora eu não me assusto nem se o Ultraman baixar aqui no terraço do meu quarto. Custava uns 350 reais a bichinha e tinha só uma. Incrível.

2. Hj eu marquei de encontrar dois brotos. O segundo é um chinês legal, mas meio doidão. Tipo que ele fala coisas meio sem sentido umas com as outras, além de fazer umas brincadeiras bizarras. Mas o mais impressionante é que o indivíduo está aprendendo árabe porque diz querer ir para Israel ver o onde Jesus morreu, sendo que nunca nem sonhou em ser cristão (ele disse: "eu quero ver onde aquele cara...Jesus, né, morreu. Foi assim: (mostrou a posição da cruz)". Além disso, ele diz achar bonitos os caras usando aquelas roupas de Ali Babá. Mas alguém usa aquelas roupas em Israel?

3. O primeiro era um japa de 18 anos, ainda no último ano do colegial. Desse aí eu ouvi cada coisa...Se liga no papo (traduzido do japonês).
Eu "No Brasil, não falamos a língua brasileira, mas a língua portuguesa"
Ele "ah, mas por que vcs usam esse nome pra língua"
Eu "porque vem de Portugal, né"
Ele "Portugal? Que isso, um país?"
Aí eu expliquei pra ele que no rabinho da Espanha tem um país que foi bem importante e talz. O menino ficou envergonhado e completou: "mas tem vários amigos meus americanos que achavam, antes de vir pra cá, que o Japão era parte da China". É, como diria a drag, A IGNORÂNCIA IMPEEEEEERA.

4. Ontem eu fui ver fogos de artifício (a.k.a Hanabi) com meu amigo japa. Aqui eles amam fogos de artifício e talz, fazem isso há 300 anos. Sim, até os samurais brincavam! Pode parecer coisa boba, mas ontem eu entendi um pouco do que é isso. O negócio é que precisa da atmosfera perfeita pra curtir o negócio, que é:
a) tempo bem bem quente
b) céu bonito
c) beber saquê enquanto se vê os fogos
d) gritar palavras japas de admiração quando estoura um bem foda
e) vestir yukata, o kimono de verão
Daí que eu saí andando pela cidade com meu yukata. Devo dizer que é bem estranha a sensação, porque o yukata, nas versões mais baratas, parece muito um pijama. E como eu nem preciso dizer que o meu é baratíssimo...
Fui ver o hanabi com um amigo japa, daí fomos depois beber num bar. Mto legal, apesar de eu qse ter perdido o último trem e virado mendigo nas ruas de Tokyo.
A foto de cima é da galera que anda com ele na faculdade. Toda quarta a gente se vê pra comer um rango japa ou brasileiro. Ultimamente eles andam viciados em farinha de mandioca, que chama carinhosamente de furikake (sabe, a poeirinha que os japas põem em cima do arroz).

24.7.07

O dia em que dancei que nem idiota na frente de 130 crianças e 16 países diferentes





Fuck...
Durante três dias, 16 estudantes de diferentes países vão a um acampamento de verão com pirralhos japas de 12 a 14 anos. Objetivo: falar em inglês.

O que era pra ser divertido vira um pesadelo quando vc olha na cara da criança e diz "my name is Thiago, nice to meet you" e recebe como resposta um "não tô entendendo nada" em japonês bem grosseiro. Sim, as crianças não entendiam porra nenhuma de inglês, não falavam, não escreviam, nada nada. Cada um dos capitães - eu e os outros estrangeiros - tinha um grupo de 7 crianças. Tínhamos que comer juntos, brincar com jogos educativos e participar das competições culturais. Uma delas, a mais famosa, era pra cantar e dançar uma música do país do capitão.

Resumindo: agressão. No Japão, menino não fala com menina, daí que a líder do grupo era racha e não gostava de conversar comigo. Eu tentei de tudo, todos os assuntos, todas as perguntas, e nada funcionou. Decidi tentar japonês. Elas entendiam, mas se limitavam a rir da minha cara. Os meninos eram um pouco mais legais. Um deles era um nerd do xadrez e me evitava. Um baixinho neutro que era bom de spelling mas não gostava de puxar papo, um gordo meio folgado e um forrest gump completavam a turma.

Daí que fazer esses pequeninos agressores cantar e dançar "se a canoa não virar, olê olê olá" é algo quase impossível. Parecia a escola do Professor Girafales. E eles não sabiam nem queriam saber nada sobre Brasil, sobre mim ou sobre qq coisa. No dia da apresentação, eu dancei e cantei empolgadão, achando que eles tavam acompanhando. Quando vi no vídeo que uma menina fez...SÓ EU PULAVA!

As crianças japas são diferentes e iguais às brasileiras em muitos pontos. Vamos listar.

Pontos diferentes
1- Elas são muito mais quietas. Na hora do almoço, qse tdo mdo come em silêncio. No ônibus, o máximo que elas faziam era dar socos umas nas outras. Nada de mostrar a bunda na janela, atirar coisas, nada.

2- A organização é impressionante. Nós escalamos uma montanha cheia de pedras, bem difícil, e eu fico imaginando o que aconteceria se, no Brasil, 130 crianças fossem colocadas na mesma situação. Morte em massa. Ah, e as meninas ainda subiam cantando...Cute! Ah, e depois da refeição, todo mundo ajuda na organização dos potinhos, hashis, talheres, de modo a facilitar o trabalho de quem limpa tudo.

3- No Brasil, acampamento de 14 anos tem...Álcool escondido, Playboy, gente querendo ficar e daí pra pior. No do Japão, Coca-Cola e doces são proibidos no acampamento, e o máximo da transgressão é consumir essas coisas.

4- A coisa mais errada que aconteceu nos três dias foi um menino esquecer a roupa de ginástica no quarto após a arrumação das malas. Resultado: o infeliz foi obrigado a fazer flexões na frente da escola inteira, durante a cerimônia de encerramento.

Pontos iguais
1- Crianças xingam as outras e põe apelidos.

2- Elas não gostam dos professores chatos. Um bando de meninas rebeldes veio falar pra mim que o diretor da escola era um "buru japaniizu gorira". Buru=blue, pq ele vestia uma camiseta azul e era grandão e mal encarado. Um outro professor gordo velho era "japaniizu orudo boru". Japanese old ball. Hahahahahaha...

3- Os meninos adoram brincadeiras de soco. Mas é diferente do Brasil...Aqui, eles parecem ter uns 5 anos a menos do que tem. E as meninas tb têm mta brincadeira de correr atrás da outra, empurrar...Mesmo com 14 anos.

Bom, pra piorar, o chefe dos capitães era um americano de filme de sessão da tarde, megaempolgado com tudo. "Hello, everybody! Good mooooorning! I didn't hear you...GOOOOD MORNING! Let enjoy the ENGLISH SUUUUMER CAAAAMP". Ai, meu deus...

O ponto culminante foi quando ele fez todo mundo - professores, inclusive - dançando Hocky Pocky. E aí, depois disso, a galera teve de cantar It is a small world abraçada. Sabe, aquela coisa ultra forçada, totalmente sem sentimentos? Os japas copiam essas babaquices de acampamentos americanos freakies e conseguem piorar, pq nem construir a situação direito eles conseguem. As crianças apáticas quase morreram de tédio, e só o staff se divertia, pelo visto. hahahahah...aff, nascer nesse país, cruz credo.

Mas pelo menos eu fiz um amigo da Tailândia, mais um, e a gente conversou bastante. As pessoas de lá são ótimas. Ah, e foi a primeira vez na minha vida em que fiquei mais de três dias sem falar português. Além disso...Sim, o mundo infanto-juvenil é o que eu quero estudar. Ficar com os pestinhas foi difícil, mas legal. Msm com eles mal olhando na minha cara. Isso porque, ao longo dos dias, deu para fazer amizade com uns mais legais, e quando fomos ao parque de diversões juntos, ficamos andando juntos msm sem ter mais a obrigação. Esses meninos legais são os que tão na foto. O gordinho, no caminho de volta, me revelou que conhecia coxinha e adorava. Tinha comido num rest brasileiro.


19.7.07

Festival da Agressão


No domingo eu fui num matsuri com a turma de professores amigos do Eric.

Olha só: o americano grandão aí da foto disse que o negócio ia ser em Ichikawa, uma cidade que fica em outro estado (ok, não é tão longe assim, uma hora pra chegar lá). Aí eu vou todo feliz, com sacola na mão, e quando chega lá...O ANIMAL CONFUNDIU OS NOMES! Em vez de Ichikawa, era Ichigaya, uma estação beeeeem mais perto da minha casa. Pode? Daí, qdo chega lá, eu descubro que o negócio é no famosíssimo YASUKUNI JINJA, o tempo que mais gera controvérsias na Ásia e está nos jornais do mundo todo. Isso porque ele foi construido em nome dos criminosos de guerra, e cada vez que o primeiro-ministro vai lá é sinal de que o Japão ainda não aceita que estuprou, mutilou, roubou os vizinhos.

O matsuri era da hora. Parece os do Brasil, mas mais chique. Dança de véias, comidinhas e barracas de brincadeira. Na verdade, acho que a melhor comparação é com as festas juninas. Só que em vez de usar bigodinho pedreiro e camisa xadrez, os japas usam yukata (kimono de verão). Eu inventei de comer um takoyaki gostoso, só porque o polvo tava aparecendo vem roxinho nas bolinhas de massa. Só qdo eu peguei o baguio...Tava quente pra porra e eu quase joguei tudo no chão. Nossa, amaldiçoei até a décima geração do imperador.

Depois do festival, resolvi comprar um yukata. Nem foi tão caro - uns 55 reais mais ou menos. Só que agora estou com um problema: não acho as sandálias tradicionais do meu tamanho. Pra achar um suripa (um chinelo pra usar só em casa), já foi um sacrifício - paguei 15 vezes o preço normal. Hj tem um monte de japa grande por aqui. Não sei porque tudo continua sendo no tamanho de anão.

Ah, e lembrei agora: a palavra utilizada no título deste post está se expandindo para outros reinos. Eu ensinei meu amiguinho da Indonésia a falar "agressão". E agora uma menina da Mongólia e um cara do Panamá também aprendeu (ele também fala "cafona" e "brega"). O próximo passo é ensinar esse povo a falar "broto". Meu reinado está começando!

16.7.07

Una chilena en Japón

Violeta Parra é uma cantora chilena que nasceu em 1917. Morreu 50 anos depois, acho, após atirar na própria cabeça. Compôs inúmeras músicas, álbuns, aquela coisa toda.

Violeta me acompanha na rua, no trem. Ela canta a trilha sonora dos meus passeios em Harajuku cheio de japas bizarros na paisagem. Com seu violão repetitivo, às vezes até violento, povoa o caminho da estação à minha casa com ritmos e tristezas dos Andes chilenos. A voz dela é seca, não tem a sexualidade das cantoras brasileiras. As estrofes aliteradas parecem menores ainda no sotaque que corta tudo pelo meio.

As letras falam de injustiça e solidão. Violeta não tem medo de agredir os presidentes, os burocratas, o papa até. Ironiza os preconceitos, instiga a revolta. Chora a melancolia do amor malfadado. O significado é claro, a gramática é direta, assim como as poesias do compatriota Neruda. Por alguma razão, eu não gosto de Chico Buarque e adoro Violeta Parra. Creio que é por uma questão de sentimentos, mesmo - nada sinto no primeiro, tudo me envolve na segunda.

A música que ela faz é daquelas que precisa de espaço para repercutir, ecoar. Como a eternidade das paisagens chilenas, cheias de montanhas que fazem a gente se sentir minúsculo, irrelevante. Aqui no Japão tudo é pequeno, comprimido, superpovoado. Daí que ouvir Violeta Parra traz a sensação de que a extensão dos seres humanos não termina de repente, no limite do outro, mas se perpetua até desvanecer por falta de força e coragem.

Essa música aí foi feita para um amor que se mandou para o norte sem dar muitas satisfações. Mesmo lendo não é muito fácil de entender o vocabulário para quem não fala espanhol (eu precisei de um dicionário.



http://www.geocities.com/Vienna/Strasse/1791/chile/runrun.html

9.7.07

Eu, pós-summer sales

Eu acho que você deveria juntar suas coisas e viajar agora mesmo

Não, não. Este não será um post de auto-ajuda. Também não será uma enumeração desmiolada de clichês sobre viagem que andam tão na moda ultimamente. Tipo, esse negócio de “descobrir novos mundos”, “conhecer outras pessoas” e um sem-número de frases prontas que não servem pra porra nenhuma. Ou até servem, né, porque um número espantoso de pessoas levam isso a sério e parecem viver “momentos inesquecíveis” em “lugares maravilhosos”.

Meus lugares nunca são maravilhosos. E os tais momentos inesquecíveis são uma chatice: quer coisa mais babaca que chegar na frente da Torre Eiffel e falar “oh, a Torre Eiffel!”? Que saco, todo mundo já viu a droga da torre milhares de vezes em fotos, televisão, filmes, qual a diferença de encontrá-la pessoalmente? É um erro terrível, pois vivemos em busca desses momentos e só queremos nos lembrar deles. E o resto é o resto, é o arroz-e-feijão dos fatos cotidianos, que a gente usa só pra preencher o espaço vazio da barriga.

Quando falo em “viajar”, me refiro a outra coisa. Não é algo que se compra como um pacote turístico ou se transporta num ônibus de excursão. E pode acontecer na frente da Torre Eiffel ou em qualquer esquina do mundo, não importa. Para mim, viajar é reposicionar os significantes, redimensionar símbolos e valores, cortar o fio da estabilidade precária que liga um lado a outro da nossa existência. Ou, pra ser mais claro, pegar os ingredientes da vidinha de merda, pôr numa tigela e bater bem forte até virar massa de bolo (se você quer argumentar que sua vida não é de merda, então me diz quantas horas por dia gasta fazendo coisas chatas e vendo pessoas idiotas).

Ok, daí o resultado é, pelo menos, um contexto diferente. Seja matando cobras (ui!) no meio da Floresta Amazônica, bebendo vááárias cervejas num pub da Irlanda ou fazendo compras que nem uma patricinha desvairada aqui em Tokyo. E aí tudo muda e nada muda, você descobre que os lugares e as pessoas são muito diferentes e muito iguais, e, mais importante de tudo, que os significados que nos cercam só ficam evidentes quando são vistos de uma nova perspectiva. Pessoas, lugares, costumes, referências culturais...O significado de tudo isso começa a mudar depressa, ao mesmo tempo, e alguns nem mudam de verdade, enquanto outros entram em colapso e até deixam de existir.

Mas normalmente essas coisas já acontecem, não? A diferença é que, ao viajar, o processo é acelerado, e aquilo que levaria muio tempo toma, às vezes, apenas alguns meses, semanas, ou até dias. E aí acaba que você sabe mais sobre si próprio e, logicamente, sobre tudo que te rodeia. Às vezes, muitas vezes, dói um pouco, ou até demais. Mas a dor, sabem vocês, é indício de algo vai mal. Não que saber isso seja bom necessariamente – eu acho que é, mas é minha opinião, como aprendi a dizer no Japão.

Eu quero viajar pra Europa, Ásia, África, pra puta que o pariu. Na semana passada, fui na agência de viagem e descobri que, com 200 mil dólares, dá pra ir até o espaço. Se der, pretendo dar uma passadinha lá também. Não sei bem o que procuro. Mas é do meu feitio achar que sempre há algo pra ser encontrado. E pode nem ter nada, não importa. Afinal, o que faz diferença de verdade é o processo. Né?