Legenda: placa no metrô de Singapura.Dizem que a Tailândia é o país dos sorrisos, e lá não há uma única pessoa incapaz de abrir os lábios e mostrar a todo o mundo o próprio contentamento. Meu vizinho é diferente, no entanto. Nasceu em Bangkok, mas não sorri. Olha sério, quase alheio. Fala pouco e corta as conversas no meio caso elas passem de um minuto. Parece que estudou na universidade mais famosa do país e ganhou uma medalha de melhor aluno. Mas não demonstra qualquer traço de inteligência ou o oposto. Age apenas como se tudo o mais fosse desnecessário.
Ele me convida para jantar e entra no meu quarto segurando duas tigelas velhas. Fala oi em inglês e passa por mim como se fosse tão íntimo a ponto de dispensar falsa simpatia. Senta-se no chão e começa a comer os pastéis que eu preparei sem me esperar. “Gostoso”, diz em japonês com os olhos presos ao chão. Eu sento, abro a tigela velha e tiro um pouco de comida tailandesa. Sabor de namplá e manjericão doce. Ele quer saber se eu agüento a pimenta, eu digo que sim e falo três minutos sem parar sobre o que consigo e não consigo comer. Ele acena com a cabeça desinteressado, diz que precisa juntar com arroz para não prejudicar o rim. Cita o nome de dois sais minerais, com seus respectivos íons. Eu me empolgo, o conhecimento pode ser um índice da medalha na universidade. Mas ele pára. Eu pergunto o nome do prato em tailandês, ele diz mas não se esforça para que eu aprenda. Depois repete só uma vez a palavra “pastel”, sem dar atenção para a minha explicação de que em espanhol aquilo tem outro significado. Eu tento ser jornalista, e aí lembro como é difícil fazer perguntas.
Na Tailândia, o alho e o manjericão doce têm gosto mais acentuado. As pessoas pobres são as de pele mais escura, os descendentes de chineses têm dinheiro e vão para as universidades. Eu menciono o rei de lá e por um instante meu vizinho arregala os olhos. Não dura mais que um segundo. Pega um pedaço de bolo da lua-cheia e oferece a mim. O recheio é de durian, a fruta do sudeste asiático com cheiro e sabor de chorume. Eu como e faço uma careta feia.
Ele sorri. Espontâneo, cruzando o rosto todo, como eu nunca tinha visto antes. Eu busco ali algum sadismo, mas não encontro. Eu peço desculpa em japonês e deixo de lado o pedaço de bolo. Ele diz que tudo bem, termina de comer e se levanta para ir embora. Depois de amanhã vai se mudar para longe, provavelmente nunca mais nos veremos. Eu tento falar “até mais”em tailandês. As palavras param na porta, que ele já fechou atrás de si.

2 Comments:
E eu que achei que ia ser um deto romântico!
e o que a placa de cingapura faz aí? cingapura lembra "be with me", tailândia lembra "mal dos trópicos"
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