16.10.07

Nikko

Viajar, eu falei para o Flávio uma vez, é realocar significados. Talvez por isso eu ache tão chato programar demais e fazer tudo dar muito certo: porque aí vc se torna um mero espectador no seu próprio passeio, e significado nenhum muda.

Ok, essa tlvz seja uma desculpa para o fato de que eu não consigo organizar e programar nada, ou seja, evitar agressões. Mas acredito de verdade nisso. Por ex, a viagem q eu fiz com o Eric para Nikko, uma cidade montanhosa famosa por seus templos (cidade no Japão famosa pelos templos? Que novidade!) e belas paisagens.

O nego marcou essa folga há uns três meses para a gente poder ir. Eu tenho um guia falando sobre Nikko e xeroquei mais umas páginas de um outro. Pra quê? Pra tudo dar errado! Hahahaha...Primeiro, para economizar 1.000 ienes (qse 20 reais), escolhemos ir com o trem pinga-pinga, no qual impera a pobreza. 40 minutos a mais de viagem, 2h30 até lá. Ele de bermuda e camiseta, eu de manga curta, ambos sem guarda-chuva. Chega lá: água caindo aos montes e um frio de entorpecer até o demônio. Eu olhei a previsão, é verdade, mas não acreditei nos 30% de possibilidade de chover. E simplesmente não olhei a temperatura. Não levamos roupas de frio, parecia que iamos para um finde no Rio de Janeiro. Caos!

Fomos, então, aos famosos templos da cidade, onde um exército de crianças e velhos duelavam com seus guardas chuvas coloridos. Os templos eram iguais a todos os outros, e em algum deles tinha q tirar o sapato pra entrar. Caos, caos. A gente, morrendo de fome e frio, olhou tudo num pulo e correu para o hotel. Era cinco da tarde, parecia meia-noite de tão escuro. Todas as lojas fechando, inclusive os restaurantes. Perdidos no meio do nada, na beira de um rio e uma montanha, um garotinho que surgiu do nada, Souta-kun, nos guiou até perto do hotel em que eu queria me hospedar. Não fiz reserva, claro, pois era uma segunda-feira e ninguém iria viajar. Quartos esgotados. Embaixo da chuva e um frio de 5 graus, no meio de uma rodovia na montanha, eu tentava buscar outro lugar pela internet do celular. Meus dedos não se mexiam mais, paralisados pelo frio. Agressão! Por sorte, um hostel ali perto tinha vagas...

Lá, uma simpática velhinha nos recebe. Simpática? A mulher falou tantas regras q eu fiquei tonto. Retorno até as 20h, banho até as 21h. Café da manhã às 7h30. Saímos pra jantar, era 18h, e não tinha mais nada aberto. Por sorte, uma cadeira de rest do interior tinha uma unidade de lá e nos salvou. Na volta, mais agressão: Eric foi só ver como era o ofurô, e a véia começou a gritar dizendo q ele tava tomando banho de porta aberta. Hahahahahah...Fora a bronca q eu tomei por entrar com o guarda-chuva naquela espelunca.

Dormi mto mal. No dia seguinte, 7h30 em ponto, café da manhã com salada (!) e ovos. Pão e chá. A véia era outra, simpática, perguntando dos 100 anos da imigração japonesa pro Brasil. Acho q ou ela é bipolar ou deu bem gostoso pro véio dela naquela noite. Sei lá. Saímos pra passear e o Eric comprou uma blusa na única loja de roupas da cidade, minúscula, com um vendedor que já devia estar aposentado quando eu nasci. Eu resisti, pois não queria gastar. Fomos de ônibus em busca de um tal lago com umas cachoeiras lá e, pra iniciar bem o programa, Eric esqueceu seu cel no ônibus. E eu, sem blusa, me senti como um bonecos de neve na Islândia. Por sorte, numa lojinha de doces, a véia vendedora (sim, outra) tirou do nada umas blusas de frio de uma sacola e resolveu vender. Como eu descobri? Eric achou q deveriamos perguntar se tinha blusa de frio na loja de doces. Eu ri da cara dele, claro, e perguntei só de raiva. Dai tinha...

O resto da viagem foi legal. Atravessamos uma floresta com as folhas todas laranjas. Fomos ao onsen e entramos na piscina quente ao livre, com aquele frio horrível. Tem poucas coisas tão boas neste mundo, devo dizer! O engraçado é q, tirando nós dois, se juntasse a idade dos outros usuários do onsen daria mais que a idade de Platão e Aristóteles juntos...

Olha umas fotos aí.
www.flickr.com/tokyo4losers

e uns vídeos




8.10.07

3 passeios interessantes

Quais lugares a gente deve conhecer ao visitar outro país? A resposta não existe, óbvio, mas devo dizer que pelo menos para mim esse conceito está mudando a cada dia. Ontem e hoje fiz três passeios que eu diria imprescindíveis na minha estada por estas bandas.

1- Onsen Os banhos públicos são uma tradição japonesa - isso quase todo mundo sabe. Mas ir a um deles de fato é uma sensação bem, digamos...Diferente. No sábado fui a um deles com meus amiguinhos malaios, Chow e Stephen. Fiquei ansioso, coisa besta, mas é que sempre fico morrendo de medo de fazer milhões de coisas erradas e ganhar olhares feios. Sei que é coisa de gente fraca ter tanto receio de cometer uma gafe, mas é que minha cara não-oriental faz tudo parecer tão pior.
A gente foi num bem grande, com vários opções de piscinas: quente a 41,5 graus, 39,6 graus, ao ar-livre, fria, com hidromassagem, e mais duas saunas, uma seca com TV e outra normal. Claro que todo o tempo você fica sem roupa nenhuma, já que é um banho. E aí que vem a coisa estranha: ficar pelado com outros 200 japas de todas as idades é uma situação bem engraçada. Porque eles continuam com a mesma cara de "estou no trem", ou seja, indiferente, olhando para o nada, mas dando aqui e ali uma espiada de rabo de olho no estrangeiro. E você se sente um alien, exceto talvez pelas crianças, as únicas que não ligam pra vc. Situações péssimas: eu entro na piscina e todo mundo sai. Eu entro na sauna e todo mundo sai. É certo que meus amigos também estavam comigo, mas eles têm cara de asiáticos, ainda que seja bem óbvia a não-japice deles. E antes que alguém pergunte: não é quase nada excitante a situação, já que depois de 5 minutos é como se vc estivesse numa piscina qualquer. Ok, não seria legal estar em um desses com um monte de mulher. Mas nem dá mta vontade de ficar olhando pra ngm, não.
E é relaxante pra kct, devo dizer. Apesar das águas quentes serem quentes demais e as frias, frias demais.

2- Ageha Com certeza a maior festa gay do Japão, acontece a cada dois meses numa balada longe de tudo, na beira de um rio. O preço assusta, o lugar também: 80 reais para entrar num galpão gigantesco, duas pistas sem-noção de grandes, sistema de som fodaço, piscina ao ar livre para ficar em volta, praça de alimentação e um local com cabana e redes para descansar. Ah, e dark room, claro. No começo, fiquei bem empolgado, ainda que o som fosse eletrônico agressor. Mas aí vai passando o tempo e cai a ficha de que aqui é Japão, e na balada não tem um ser humano abraçando ou beijando. Com exceção de uns estrangeiros aqui e ali ou japas mais saídos. A galera tava lá: Aulia, o indonésio, os dois malaios, Shin-chan, um chinês, Eric e outros conhecidos. Mas devo dizer que algo me fascina: sei lá quantas mil pessoas e ninguém encosta em você para pedir passagem, dançar ou qq outra coisa. E na pista, todos os japas olham para o DJ, para os gogo-boys ou para as drags - que são muito engraçadas falando em japonês. Sei lá, eu só consigo pensar em drag falando espanhol, português, inglês, mas nunca uma dessas línguas asiáticas. Peguei um vídeo no Youtube pra dar uma idéia do lugar. Vê no final.

3- Bshaft Ok, o mais...diferente fica pro final. Hoje, um feriado chuvoso, eu estou na internet e o malaio Stephen me convida para ir numa sauna gay. Nunca fui, no Brasil nunca iria, mas por que não aqui no Japão? Pelo menos é certeza que não ia ter nenhum tipo balada do Arouche andando por lá (se acha que preconceito, cata os nego lá do Arouche e vem me falar).
O lugar era minúsculo, a gente levou um século para achar, e acho que só deu certo porque o Stephen fala chinês e conseguiu decorar o nome do prédio em kanji. Numa rua pequena, um predinho baixo com a escada escondida. A placa só tem o nome escrito: Bshaft. A porta fechada, que nem essas de serviço, com uma placa que eu, nervoso que tava, li como "só funcionários". Mas por sorte o menino viu os kanjis e descobriu que ali era a entrada.
Luz bem escura, som bem alto, japas, só japas, todos jovens e com o corpo em cima e cara de trem acima mencionada. Nada de vovôs nem barrigas. Eu e o outro agressor, que pareciamos o Faustão perto dos outros, ficamos meio inseguros. Pior para ele, porque eu não queria nada ali: um pequeno labirinto de corredores, com saídas para salinhas de sexo. Dentro das salinhas, os caras trepam de porta aberta mesmo, e quando uma música acaba e passa pra outra, você ouve os gemidos e sons engraçados. E os caras ficam parados na frente das portinhas: o corredor da direita era para passivos, o da direita para ativos. Se você fica esperando em um dos dois lugares, o povo já sabe o que você. Organização japa, vai dizer. É difícil ver os rostos, os corpos é que estão lá à venda, e eu não consigo deixar de achar graça na situação. Pobre Stephen, que tem um sorriso alegre e uma cueca amarela, no meio dos japas com cara de mau. Não se ouve um palavra humana, só sons. Os únicos que falávamos, claro, éramos nós dois.
Eu sentei num sofá e fiquei esperando para ir embora. O outro tentou, tentou e nada conseguiu. Se antes eu tava assustado, no final saí dando risada. É um teatro, né.

5.10.07

Estar longe

Aos poucos, Tokyo vai se tornando a minha casa. Eu já sei como chegar nos lugares, onde estão as coisas de que eu gosto, porque este lugar é melhor que aquele. Quando se anda muito tempo sozinho pelas ruas, e esse é o meu caso, cedo ou tarde a cidade vira sua companheira, ou tlvz até mais q isso. É quem te acompanha pra cima e pra baixo, que te segue na volta pra casa depois da ida ao bar, que te vê triste e alegre quando não tem mais ninguém por perto para testemunhar.

Da janela do meu quarto, eu vejo os prédios gigantescos de Tokyo com luzes vermelhas piscando no topo (para evitar acidentes de avião). Há uns meses, essa era a imagem da melancolia. Agora se tornou parte do meu quarto, eu olho e não percebo mais.

Com São Paulo, as coisas eram mais ou menos assim. Com a diferença que lá parecia um lugar bem mais fácil de dominar, visto que os pontos a conhecer eram em número bem menor que os daqui. Hoje vejo que não. Se aqui tem trocentas vezes mais restaurantes, museus e o diabo a quatro, São Paulo tem uma diversidade de paisagens que Tokyo nem sonha em possuir. A diferença do Morumbi para a Luz, e desses dois para São Miguel - isso não existe nem de um estado para outro aqui no Japão. É o que dá não ter pobreza.

Eu ainda não me sinto confortável aqui como nos lugares que freqüentava em São Paulo. Isso porque a qualquer momento pode aparecer um japonês que vai olhar feio para mim por eu ser estrangeiro, ou falar algo que eu não vou entender e me deixará com cara de tonto. Isso se reflete também na minha relação com a cidade - eu sou metade brasileiro, Tokyo é inteira japonesa. Às vezes penso que seria mais feliz em Osaka, onde as pessoas são mais brincalhonas e barulhentas. Mas é incrível pensar que estou na maior cidade do mundo em número de pessoas - e que ela está a todo tempo falando comigo, ainda que em japonês.