28.11.07

Jornada da pobreza

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O conceito de viajar, nos dias de hoje, representa fugir da correria maldita do cotidiano, seja de estudos ou trabalho. No meu caso, isso não se aplica. Daí eu ter levado tanto tempo para me convencer de que, sim, eu deveria viajar a Kyoto e conhecer a região de Kansai, que tem também Osaka e Nara nos seus arredores.

Fui na maior pobreza, claro. O ônibus mais barato, em que até para mover o espírito precisava pedir licença. O hotel, cheio de véios bêbados, ficava em Osaka, pois os de Kyoto tavam todos lotados. Custava 1,500 ienes, uns 30 reais, preço que deve ser o mais barato do Japão. Olha a agressão: não tinha escada e, quanto mais alto o andar do quarto, menor o preço. As privadas eram todas no estilo japa, aquelas q são só um buraco no chão, e o banheiro coletivo dava um desgostinho de entrar (apesar dos véios japas esfregarem até não poder mais antes de entrar na banheirona). Mas devo dizer: a roupa de cama era limpinha, e eu fico imaginando um lugar correspondente a esse em Sampa, tipo o mais barato do país, se isso seria igual. heheheh

O bairro era péssimo, nunca vi coisa assim no Japão. Praticamente o Glicério de Osaka (guardadas todas as devidas proporções, hahahah). Mas era seguro, então eu nem ligo. E de lá era só uma hora até Kyoto, então dava pra sair cedinho, tipo umas 8 da manhã, e voltar antes das 17h, quando já está escuro como se fosse meia-noite e frioooo.

Kyoto é bonita. E lotada. E gostosa. O mercado Nishiki, pertinho da estação, é uma das coisas mais legais que eu já vi. Lojas de rua com os velhos vendendos aqueles produtos que já devem fabricar há décadas. Um monte de potinhos para provar todo tipo de conservas, peixes, doces. Fígado de enguia, nabos gigantes, tofu doce frito. Kyoto é conhecida pela comida vegetariana dos monastérios, que consegue fazer milagre com tofu (que aqui no Japão existe em N variedades). E também pela cozinha kaiseki, uma sequência de pratos feita para agradar todos os sabores do paladar e acompanha o chá verde (sencha, mais ralinho). Eu fui para lá pronto para tentar essa última, apesar do preço muito, muito alto (ainda q não tão alto para o Japão). 120 reais, mais ou menos. Fui lá, todo nervoso, ao ryoukan, tipo de pousada japa, para comer o negócio. Foi exatamente como nos guias de viagem: me deram uma sala individual, de onde se pode admirar a paisagem por uma janela grande. As atendentes, vestindo kimono, são gentis até não poder mais, daquelas que ajoelham no chão para agradecer.

Tudo lindo, aconchegante, mas a comida...Ah, não era lá essas coisas. Eu já imaginava que seria assim, pois optei pela pousada em vez de um restaurante de verdade. O que importa mesmo é o ambiente e a sensação de estar numa daquelas cenas de livro didático. Mas teve agressão, claro: quando a mulher gentil tinha acabado de deixar o prato na minha mesa e fechado a porta do quarto, eu fui todo alegre tirar foto do negócio. Antes, tava todo me fingindo de chique, com cara de sério. Só que, quando peguei a máquina, a vaca abriu a porta para levar chá. E me pegou no flagra com a câmera na mão, todo tiete. Affff, caiu minha máscara de nô.

Vou dizer, viu. Esse negócio de outono e folhas vermelhas me mata. Adoro, adoro. A ponto de quase não me importar com a 25 de março que virou os templos e os ônibus de Kyoto por causa do feriado. E Nara, com os viadinhos andando na rua? Muito foda, hahaha. Você anda na calçada e passa um viado. Aí atravessa a rua e vem outro. É pior que a Paulista na noite de sábado! E aí você pode comprar uns biscoitos e dar pra eles...Precisa ver, é pior do que quando aparece um broto gostoso na balada. Os viado vêm tudo em cima querendo morder.

Em Kyoto, eu fui no parque dos macacos. Eu já tava puto por ter pago quase 10 reais e subir uma montanha enorme naquele frio sem ver nenhum primata. Quando, de repente...Pula um macacão na minha frente e começa e fazer caretas. Afff, quase morri! Sabe o Chaves quando paralisa? Pra minha sorte, eu ouvi a voz de um japa no topo da montanha chamando. Daí, qdo cheguei lá, vi trocentos macacos iguais, todos soltos. Até os macacos são comportados no Japão...

No final do segundo dia, quando eu tava agredido por uma besteira enorme q fiz com as passagens da volta, resolvi ir ao Super Spa World, um parque temático com vários onsens. Fiquei um pouco nervoso de ir sozinho, porque sabe, não é fácil ser um estrangeiro pelado no meio de vários japas sem entender muito bem como tudo funciona. Mas bem, fui lá, e na hora de tomar banho sentadinho no banquinho peguei uma gilete para fazer a barba. Pra quê...Me cortei e começou a sair sangue! Mas não percebi, daí entrei no onsen do Irã e fiquei lá curtindo...Até que pus a mão na cara e vi as pintas vermelhas! Oh, não basta eles fugirem de mim nas piscinas, e eu ainda estava sujo de sangue.

Bom, me limpei, e visitei os outros banhos. Os mais legais eram o de Bali, com água perfumada, e o Japão ao ar livre, de preferência aquele em que você fica numa tina de madeira. Tava chovendo bem frio, e aí a água quentinha...Caralho.

Uma coisa boa de Osaka é que lá não é o desfile de moda que Tokyo é. As pessoas se vestem normalmente, e eu não me sinto mais um estrangeiro pobre e sujo. Sério mesmo: aqui em Tokyo, só os franceses conseguem se vestir como esses japas. Outro dia fui fazer uma análise em Shibuya e concluí que nenhum cara ali tinha gasto menos de 500 reais nas vestimentas. E eu, no máximo 150...hehehehehe (meu guarda-roupa virou brechó, cheio de coisa usada).

No último dia, Erin e seu namorado argentino se juntaram a mim e nós fomos andar no Caminho da Filosofia. Fomos comer um udon que é famosão, tem até em Nova Iorque, e foi gostoso esperar na fila por meia hora. Andamos um monte e as duas criaturas quase perderam o ônibus de volta pro hotel e tiveram que dormir na rua da amargura japa. Hahahahahhahha

17.11.07

Vocação para o nada

Faz um mês que não escrevo aqui. Por isso vou falar de uma questão socio-psicológica que afeta a economia e a religião e incomoda a filosofia. Isso sem falar na biologia, a matemática e possivelmente a física e a genética.

Quando eu era menor - mas nem tão menor assim - achava que tinha vido a este mundo para arrasar. Revolucionar, mudar, causar. Ser lembrado por gerações e gerações. Achava que era, assim, o mais inteligente do planeta. Estava destinado a abrir os olhos do povo por aí às condições primárias e determinantes da nossa existência.

Certo, eu não seria nem o primeiro nem o último idiota a querer isso. No máximo e com muita sorte, se me mantivesse obstinado, ganharia meu rostinho dourado no volume sei-lá-qual dos Pensadores. Quiçá teria um prefácio escrito por alguma marilena chauí do futuro, misturando meu nome com palavras do tipo "metafísica", "coisa-em-si" e "niilismo". E não sei como me chamaria, pois Minami não é nome de filósofo e com certeza ficaria péssimo na estante de alguém.

Pois bem, hoje digo que há muito pouco a esclarecer. Não sou mais amigo do conhecimento, não acho que isso vá trazer tanto bem a quem quer que seja. Em tempos de religião capenga, é fácil dizer que o essencial não é sabido e assim continuará. Todo o resto são detalhes divertidos de ser discutidos e explorados, mas não muito mais que isso. Não dá pra dizer que é essencial.

Ou seja, minha vocação para filosofar está desmerecida. Não tenho mais opiniões, pois tudo parece tão inconsistente. Não tenho vontade de estudar também, já que não enxergo mais aonde pode-se chegar com isso. Trabalhar, nem pensar, mais sem sentido ainda. A vocação de consumir, top de linha dos nossos tempos, bate em mim fraquinha, fraquinha. Não presto para ser artista, não sou obstinado o suficiente. Tampouco sirvo para os esportes. Vocação para amar, então, é talvez a mais moribunda de todas. Faltei nessa aula, não estudei, tirei zero na prova.

Estou aqui para o quê, então? Para nada. Para o nada. Sei de um bocado de gente com questões semelhantes, e em alguns lugares (como o Japão) já é considerado problema social até. Seres como eu já foram quantificados estatisticamente, colocados naqueles gráficos de pizza.

Não sei quanto aos outros, mas no meu caso o impulso em direção ao futuro se resume a uma tênue resultante expressa na seguinte equação:

Força em direção ao futuro = comer + estar com pessoas + X - todas as lacunas acima mencionadas

O bom é que essas lacunas são valores baixos, o que em geral torna positiva a força na parte de lá da equação. Já a variante X às vezes é um filme bom, uma música legal, um lugar interessante. E aí eu vou pra frente.

Por que você está no Japão? Por que quer fazer mestrado? Por que está neste mundo? Não sei, não sei, não sei. Vivo feliz que nem um cachorrinho, pensamento somente em qual vai ser o próximo pedaço de carne a mastigar. E no próximo carinho que vão me fazer na cabeça. O curioso é que isso não é exatamente ruim - antes, trata-se de um outro jeito de viver. Não estou triste, desesperado, nada disso. Estou bem, obrigado. E só um pouquinho curioso para saber aonde tudo isso vai dar.