17.11.07

Vocação para o nada

Faz um mês que não escrevo aqui. Por isso vou falar de uma questão socio-psicológica que afeta a economia e a religião e incomoda a filosofia. Isso sem falar na biologia, a matemática e possivelmente a física e a genética.

Quando eu era menor - mas nem tão menor assim - achava que tinha vido a este mundo para arrasar. Revolucionar, mudar, causar. Ser lembrado por gerações e gerações. Achava que era, assim, o mais inteligente do planeta. Estava destinado a abrir os olhos do povo por aí às condições primárias e determinantes da nossa existência.

Certo, eu não seria nem o primeiro nem o último idiota a querer isso. No máximo e com muita sorte, se me mantivesse obstinado, ganharia meu rostinho dourado no volume sei-lá-qual dos Pensadores. Quiçá teria um prefácio escrito por alguma marilena chauí do futuro, misturando meu nome com palavras do tipo "metafísica", "coisa-em-si" e "niilismo". E não sei como me chamaria, pois Minami não é nome de filósofo e com certeza ficaria péssimo na estante de alguém.

Pois bem, hoje digo que há muito pouco a esclarecer. Não sou mais amigo do conhecimento, não acho que isso vá trazer tanto bem a quem quer que seja. Em tempos de religião capenga, é fácil dizer que o essencial não é sabido e assim continuará. Todo o resto são detalhes divertidos de ser discutidos e explorados, mas não muito mais que isso. Não dá pra dizer que é essencial.

Ou seja, minha vocação para filosofar está desmerecida. Não tenho mais opiniões, pois tudo parece tão inconsistente. Não tenho vontade de estudar também, já que não enxergo mais aonde pode-se chegar com isso. Trabalhar, nem pensar, mais sem sentido ainda. A vocação de consumir, top de linha dos nossos tempos, bate em mim fraquinha, fraquinha. Não presto para ser artista, não sou obstinado o suficiente. Tampouco sirvo para os esportes. Vocação para amar, então, é talvez a mais moribunda de todas. Faltei nessa aula, não estudei, tirei zero na prova.

Estou aqui para o quê, então? Para nada. Para o nada. Sei de um bocado de gente com questões semelhantes, e em alguns lugares (como o Japão) já é considerado problema social até. Seres como eu já foram quantificados estatisticamente, colocados naqueles gráficos de pizza.

Não sei quanto aos outros, mas no meu caso o impulso em direção ao futuro se resume a uma tênue resultante expressa na seguinte equação:

Força em direção ao futuro = comer + estar com pessoas + X - todas as lacunas acima mencionadas

O bom é que essas lacunas são valores baixos, o que em geral torna positiva a força na parte de lá da equação. Já a variante X às vezes é um filme bom, uma música legal, um lugar interessante. E aí eu vou pra frente.

Por que você está no Japão? Por que quer fazer mestrado? Por que está neste mundo? Não sei, não sei, não sei. Vivo feliz que nem um cachorrinho, pensamento somente em qual vai ser o próximo pedaço de carne a mastigar. E no próximo carinho que vão me fazer na cabeça. O curioso é que isso não é exatamente ruim - antes, trata-se de um outro jeito de viver. Não estou triste, desesperado, nada disso. Estou bem, obrigado. E só um pouquinho curioso para saber aonde tudo isso vai dar.

2 Comments:

Blogger Lu said...

Eu li isso. Estou pensando, ruminando, e te respondo o post por e-mail.

Beijos!

2:43 AM  
Blogger Pattiê, said...

Cara... Deixa eu me apresentar: sou amiga da Luiza. Meu nome é Bruna, muito prazer. Ela me mostrou seu blog porque disse que talvez eu o achasse interessante... Hehe, parece que a Luiza me conhece bem... (risos) Enfim...

Meu, isso aí, esse vazio que você sente, todos acabam sentindo uma vez na vida. O que nos diferencia é que alguns sabem como lidar com o vazio, tem consciência de que ele existe, que durará uma vida toda, mas que de alguma forma é bom e nos impulsiona e ensina a agir perante as diversidades, e outros - talvez por serem MAIS covardes, ou por serem dotados de uma espécie de "metafísica previsora de futuro" - que, ao tomarem consciência do mesmo, dão cabo a isso que chamamos de vida, exatamente por não conseguirem encontrar finalidade alguma em viver.

Você faz parte de qual grupo? Eu já tomei meu lugar... Meio que a contra-gosto, mas mais lúcida do que nunca, eu resolvi tentar, mesmo sabendo que o objetivo final é ter um final. Por mais indigno que seja!

Abraços!

PS: Relacionei seu blog no meu.

1:52 AM  

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