13.6.08

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Recobrei um pouco do meu tempo perdido, então vou voltar a escrever aqui.

Ou talvez nem seja tanto pelo tempo. Mas porque mais uma vez me deu vontade de falar sobre qualquer coisa. Especialmente porque meus dias andam cheios de barulhos e sempre é bom transformá-los em palavras escritas. Pra não ficar louco, né.

Aliás, desde a mudança para a nova casa – lá pelas tantas de março – que a minha cotação do silêncio subiu mais que a do petróleo. Virou artigo de luxo, veja só, e eu já ando achando que deveria ser vendido nas lojas de Ginza (que eu poderia comparar ao Shopping Iguatemi a ou algum centro deprimente da Classe A paulistana. Ihhhhhhh, me acheeeeeeeeei!).

O Japão é um lugar bom para se pensar no silêncio. Quando cheguei, achei que o país todo era uma enorme sala de concertos – ou uma cerimônia funeral – em que as crianças não gritam, os cachorros não latem e os celulares não tocam. Hoje acho que meus ouvidos estão mais sensíveis. E a mais leve alteração de voz dentro do trem já pinica no tímpano como um fiapo de eletricidade pela pele. Frescura? Talvez. Mas não há como negar que a audição, e a visão também, são os sentidos mais maltratados nestes emaranhados urbanos (diferentemente do tato e do olfato, acho eu, que sempre trabalham bem mais na vida campestre).

O silêncio não é só ausência de som. Assim com a escuridão não é a mera falta de luz. Eles têm substância, como o tal do éter que a Física dos tempos do bisavô imaginava preencher o vácuo universal. Acho que isso fica mais claro quando se vai ao concerto de música clássica e tem-se aqueles milésimos de segundos antes da música feitos de silêncio absoluto. Dá quase para respirar. Os japoneses sabem disso, e não há povo que acredite mais no poder verbal do silêncio que este. Lembra o diálogo de Adão e Eva do Brás Cubas? Pois os meus têm sido assim:

Eu: E aí, o que você acha de mim?

Outro: (Silêncio). Você é legal. (Silêncio).

Eu: Where do we go?

Outro: (Silêncio). Hmmm...Ah...(Silêncio)

Eu: Hmmmm...Bom, é né...(Silêncio)

Outro: É. (silêncio).

Prova de que o silêncio não é mero oposto do som são as milhares de musiquinhas que tocam no cotidano japonês. Na plataforma de trem, cada linha tem uma canção própria. As seções do supermercado têm seus temas – que são nacionais e tocam nos quatro cantos do arquipélago. Tem a música do tofu, do peixe, do leite, do shimeji. Ás vezes com vídeo e tudo. E os falatórios eternos: caminhões falam quando vão virar a esquina ou dar ré, o maquinista do trem que não cala a boca, as vendedoras das lojas, os carros de bombeiro que vão narrando tudo o que fazem – todos gritam, gritam e gritam. E nada disso fere o silêncio nipônico – tomado não no sentido literal, óbvio.

Mas não estou dizendo que é melhor nem nada disso. Sei lá se é bom falar demais ou falar de menos. E nem venha um espertinho dizer que o ideal é o “ponto certo”, porque esse também varia – assim como definir o que é excesso ou falta. Talvez seja melhor avaliar se a farsa da comunicação – nossa principal escapatória à solidão – esteja funcionando ou não. Para meus parâmetros, as palavras e os sons sobram ou faltam quando eu me sinto solitário em algum lugar ou em alguma conversa.

E o silêncio, que era o tópico principal desse post, entra aqui. O silêncio que comunica é bom. O que isola, e causa solidão, é ruim. Hmmm...

2 Comments:

Blogger Luiz Fukushiro said...

eu gosto do título porque parece que tudo que japonês fala tem reticências. desde o haikai até o naru hodo.

e já ouviu falar do não-lugar? meu, pra mim japão tem o não-barulho. porque realmente, essa barulheira toda não interfere no silêncio, tipo encontros & desencontros. o filme é todo barulhento. mas você nem sente. são paulo parece estar gritando o dia todo (aliás, acabaram de gritar na rua).

não volte assim. vão chamar você de bobo.

5:54 PM  
Blogger Marcelo said...

cara... to pra ir pro japao em breve... queria MUITO falar com algum brasileiro q tenha tido experiencias aih antes de eu ir... se possivel, tem como vcm e adicionar no msn ou me passar um e-mail? Prometo nao te encomodar mto! ;P
meu msn eh: pinerth@hotmail.com
valeu desde jah.
adorei seu blog
um abraço,
Marcelo.

11:59 PM  

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