22.12.08

Duas rodas bastam


Quando você compra um guia de viagem e espera que ele te conte o que há de mais interessante para se ver num país, a possibilidade de o que está escrito não atender as expectativas é sempre grande. Que bom. Para viajar pelo Sudeste Asiático, comprei um Lonely Planet de viagens longas e baratas. Daqueles que te fala o que não dá para deixar de ver e pronto. Peguei emprestado mais um guia japonês – como sempre, cheio de restaurantes caros, spas e shoppings – e lá fui.

Falavam os dois livros que o Vietnã é um lugar de muitas florestas, mercados baratíssimos e comidas gostosas. Tudo verdade. Mas nem de longe essas serão a minha principal memória vietnamita. Não. Do que vou me lembrar para sempre são motos, muitas motos, milhares, milhões, na maior parte de pequeno porte e visivelmente de baixo custo, vindas de todos os lados e carregando o país inteiro em seu lombo metálico.

Novos, velhos. Famílias inteiras. Namorados e amigos. Todo mundo está sobre duas rodas. No parque, os meninos abraçam as garotas só um pouco envergonhadas - ambos apoiados na motoca. Para ver a iluminação breguíssima de Natal, bebês e pirralhos vão prensados contra o corpo dos pais e irmãos maiores. Caixas, sacolas – até porcos inteiros, como mostra um cartão postal que comprei. Carrega-se qualquer coisa. Um guia turístico, em tom de piada com fundo de verdade, explicou: “a quantidade e a qualidade das motos equivalem ao nível da namorada. Moto barata chinesa, namorada feia. Moto cara japonesa, namorada bonita. Duas motos, duas namoradas”.

Em SP, eu odiava qualquer coisa que se movesse em menos de quatro rodas. Mas no Vietnã é diferente. Todos sem capacetes e em velocidade baixa, os motoqueiros – isto é, toda a população – não parece estar confinada no espaço autista que é o interior de um carro, sobretudo aqueles com janela de vidro fumê. As caras de todo mundo está lá, na sua frente, e é quase como se estivessem andando na rua. Num país em que o hábito é ficar de pernas para o ar sentado em cadeiras na rua, nada mais condizente. E que dá uma sensação interessante, boa até. Não sei se pra eles, mas pelo pra mim.

11.12.08

Mulheres

Faz alguns dias, minha amiga me pediu que comprasse uns produtos de beleza e enviasse a ela lá no Brasil. Eu, claro, deixei para a última hora - sábado vou viajar e, por isso, tive de passar em umas 6 farmácias para encontrar os negócios. Espuma para deixar o cabelo liso, leite para o corpo (??), creme de mão...

Não foi fácil achar tudo e, na verdade, ainda faltam uns dois itens na lista. Isso porque a seção de produtos de beleza femininos é imensa e cheia de rótulos, especificações, não sei o que para isso, sabe-se lá menos para aquilo. Então veio uma pergunta: será que, todas as vezes que eu encontrei a tal amiga, ela estava com esse monte de coisa na cara e no corpo?

Nunca entendi de verdade porque as mulheres usam isso tudo. É verdade que, no Japão, os homens até tem uns produtinhos também - que chegam a encher uma estante toda na farmácia. Mas ainda não dá para comparar. Sei que é inútil questionar o uso desses cosméticos, já que questões sociais, culturais, mercadológicas e mais sei lá quantas pesam sobre as pobres moças. Só não pude deixar de pensar em quantos minutos relevantes da vida e quantos dinheiros a mais no bolsa elas não teriam se pudessem se ver livres dos cremes anti-rugas da vida.

Isso me lembra a minha mãe, que ficava insistindo para eu passar loção hidratante porque "faz bem para a pele". Eu passava aquele negócio e parecia estar todo lambuzado, sujo, com um ranço de flor murcha.

A sensação voltou no ano passado, quando comprei um produto para fazer limpeza facial. Usei uma, duas, três vezes...Quando esqueci de tirar depois de 10 minutos e saí para a rua com a cara toda branca. Cheguei ao trabalho e alguém comentou: "nossa, que houve com seu rosto?". Agressão. Definitivamente não sirvo para essas coisas.

4.12.08

Aqui começam nossos problemas

Preciso escrever algo sobre qualquer coisa.

É geralmente dessa vontade, recorrente e aleatória, que eu acesso este blog para tentar falar algo. Aí fico pensando, pensando e me dá sono. Até a próxima vez que isso acontece e eu venho aqui de novo.

E falar o quê, né? Já não estou falando por aí o tempo todo, tendo ou não assunto? Conto tantas histórias, dou tantas opiniões, rejeito tantas outras que já não faço idéia do que falei para quem. Ou quem me falou o quê. A memória é uma coisa triste, assim, que deveria ficar melhor ao longo do tempo para acompanhar o aumento da quantidade de coisas para armazenar - e, ao contrário, vai ficando cada vez pior.

Mas será que vale a pena ter tanta memória? Nossa lembrança é a interpretação que fazemos do presente...A realidade, toda complexa, posta numa narrativa simples e unilateral. Por natureza enviesada.

Sei lá se vale. Só que tem sua graça, é verdade. Nossa própria ficção, escrita momento após momento, como resumo de nossos valores, opiniões, neuras e demais pendengas psicossociais apertando e sovando as experiências. E tudo vira um filme (ou livro, peça, o que preferir).

Só não gosto quando esse filme vai se apagando, perdendo partes. Mas, bem pior que isso: quando precisamos inserir trechos pela imaginação. Nestes dias, por exemplo, uma amiga das antigas se casou. Eu não pude estar lá, porém, como o evento é importante, precisei inclui-lo nas minhas memórias. Não sei se todo mundo é assim - em situações dessas, crio toda a cena na minha cabeça, ela de noiva meio nervosa meio contente, o noivo com cara de bunda, os parentes se sentindo numa novela das oito. E a coisa romântica toda rolando no momento singular. Eita! E as comidas...Me imagino comendo tudo, hahahaha, que com certeza é o que faria.

Olha aí a cara da noiva...Me ajudou bastante a configurar o trecho do filme que faltou. Um dia eu vejo mais fotos e descubro que foi totalmente diferente do que tenho em minha memória. Só que nem por isso um vai ser mais verdade que o outro. Já que nenhum é verdade de verdade. Ih, que complicado...