26.9.07

Quem anda por aqui

Esse negócio de ter amigos por conveniência às vezes me põe pra pensar. Desacostumei com isso, me aproximar de pessoas só porque elas estão ali, disponíveis. Ontem fui almoçar no bandejão e encontrei um grupo com quem sempre estou às voltas. Fiquei pensando neles...

Shi Uma chinesa baixinha, não muito bonita, sempre sorridente. Às vezes acho q ela é a fim de mim. Outro dia, transcreveu uma música inteirinha pro nosso alfabeto só porque eu pedi. E quer porque quer me ensinar a cantar em chinês. Tem cara de ser boa esposa, boa mãe. E fez um negócio surpreendente: há um mês, quando apareceu no mundo sabe-se lá como, não falava nada de inglês. E agora, de repente, comunica-se sem nenhum problema na língua do Michael Moore. Chineses são loucos...

Kazumi Uma japa que se diz conservadora, vinda de uma das provínciais mais longínquas do país. Mas usa uns shortinhos minúsculos, adora dança latina e se recusa a falar em japonês. Curiosamente fala francês e inglês com boa pronúncia, coisa rara - raríssima - por aqui. Se você é homem estrangeiro, ela é amável e sorridente. Diz que estuda sem parar e chupa limão para se manter acordada nas noites de leitura. Não sei se é verdade, pois ela é bem do tipo que gosta de ser fazer de humilde, mas a todo momento deixa escapar uns quês de presunção. Eu gosto dela, até.

Fernando Um panamenho de 1,90 e olhos de boneco de ventríloquo. Ele é bem certinho, mas como vem da América Latina, isso significa que está nos níveis aceitáveis. É o tipo macho emotivo, que chora nos filmes de amor e não fala bobabens na frente das meninas. Tem cara de chinês fofo, mas infelizmente fofura não põe a mesa.

Luke Neo-zelandês louco por meninas de olhos puxados. É só ver uma que sai atrás que nem raposa em busca de galinha. Tem um sotaque estranho, meio britânico, e faz piadinhas pressupostamente espertas o tempo todo. Sempre vê algo que só ele descobriu e termina com "it's won-der-ful", de um jeito que, se não o conhecer, você acha q é coisa de viado. Não é bonito, coitado, e anda meio perdidão na vida. Demorou até eu gostar dele.

17.9.07

Fotos
















As pessoas estão começando a ir embora...Ontem foi a despedida do Naoki, um suíço mestiço que canta bossa nova em português. E aí, do nada, o menino do Panamá decidiu distribuir bandeiras desse famigerado país. Foram todas parar no cabelo da coreana, hahahaa.

Ah, e eu fiz coxinha para a festa, mas elas perderam em popularidade para os guiozas, os rolinhos vietnamitas e os sorvetes da Haagen Dazs. Tudo por culpa do Eric, que me ajudou a fazer e pôs uma quantidade miserável de recheio, tirando toda a graça do bagulho =(

Comida



No Japão, a impressão que dá é de que as pessoas pensam muito em comida, bem mais que no Brasil. A quantidade de restaurantes é sem noção, um atrás do outro, e num pequeno bairro no meio do nada é possível encontrar mais lugares que no Butantã inteiro. Livros, revistas, programas de TV. A capa da Playboy e da Esquire esse mês são pratos de comida. Você liga a TV no horário nobre, e lá está uma celebridade cozinhando uma super receita nova de lamen. Ou um grupo de gente sai em busca do gyoza perfeito. Ou sei lá quem quer mostrar porque o takoyaki de Osaka é melhor que o de Tokyo.

E a parte mais movimentada das lojas chiques é sempre destinada à comida. Tem um lugar aqui em que os chocolates ficam na vitrine como se fossem jóias, e o preço não fica nem um tantinho assim atrás: 1,000 reais numa caixa de chocolatinhos. Daí para mais.

Japoneses pensam bem mais em comida que em sexo, pode-se pensar até. Bom, não sei quanto a eles, mas eu pelo menos sou assim. Tanto que, na semana passada, aconteceu uma coisa muito foda. Fazia uns dias, eu tinha visto na TV umas celebridades experimentado wagyu, a famosa carne de boi produzida em Kobe e dita melhor do mundo por uma galera aí. O boi recebe massagem, toma cerveja, só não entra no ofurô porque não cabe. Tudo para vender uma bandejinha de 100g de carne por, no mínimo, 20 reais. Um bife, 50 a 100 reais.

Aí estava eu no supermercado quando, por acaso, vi a porra da carne sendo vendida pela metade do preço. Tava no dia de vencer, e 150 g de coxão mole (acho eu) estava sendo vendida por uns 15 reais. Pensei, pensei, comprei. Levei pra casa correndo, morrendo de curiosidade. Pus correndo o arroz para cozinhar, mas não aguentei e fiz a carne antes. Deixei um pouquinho vermelho, 3 minutos no fogo de muito. E aí...

Eita nóis. Cacete, puta que pariu. Não dá pra expressar o que é aquela carne. Coxão mole, veja só, e eu quase chorei de comer aquilo. Fiz sem sal, sem nada, só passei num molho adocicado pronto. Mas aí resolvi tentar sem o molho, e vi que dava para comer daquele jeito mesmo, e ficava bom igual. Eu odeio tirar foto do que vou comer, mas nesse não resisti. E ainda vou colocar aqui a foto horrível da belezinha, que eu jurei colocar muitas outras vezes na minha boca até deixa este país. Que Monte Fuji que nada. Isso é que é Japão.

12.9.07

Legenda: placa no metrô de Singapura.

Dizem que a Tailândia é o país dos sorrisos, e lá não há uma única pessoa incapaz de abrir os lábios e mostrar a todo o mundo o próprio contentamento. Meu vizinho é diferente, no entanto. Nasceu em Bangkok, mas não sorri. Olha sério, quase alheio. Fala pouco e corta as conversas no meio caso elas passem de um minuto. Parece que estudou na universidade mais famosa do país e ganhou uma medalha de melhor aluno. Mas não demonstra qualquer traço de inteligência ou o oposto. Age apenas como se tudo o mais fosse desnecessário.

Ele me convida para jantar e entra no meu quarto segurando duas tigelas velhas. Fala oi em inglês e passa por mim como se fosse tão íntimo a ponto de dispensar falsa simpatia. Senta-se no chão e começa a comer os pastéis que eu preparei sem me esperar. “Gostoso”, diz em japonês com os olhos presos ao chão. Eu sento, abro a tigela velha e tiro um pouco de comida tailandesa. Sabor de namplá e manjericão doce. Ele quer saber se eu agüento a pimenta, eu digo que sim e falo três minutos sem parar sobre o que consigo e não consigo comer. Ele acena com a cabeça desinteressado, diz que precisa juntar com arroz para não prejudicar o rim. Cita o nome de dois sais minerais, com seus respectivos íons. Eu me empolgo, o conhecimento pode ser um índice da medalha na universidade. Mas ele pára. Eu pergunto o nome do prato em tailandês, ele diz mas não se esforça para que eu aprenda. Depois repete só uma vez a palavra “pastel”, sem dar atenção para a minha explicação de que em espanhol aquilo tem outro significado. Eu tento ser jornalista, e aí lembro como é difícil fazer perguntas.

Na Tailândia, o alho e o manjericão doce têm gosto mais acentuado. As pessoas pobres são as de pele mais escura, os descendentes de chineses têm dinheiro e vão para as universidades. Eu menciono o rei de lá e por um instante meu vizinho arregala os olhos. Não dura mais que um segundo. Pega um pedaço de bolo da lua-cheia e oferece a mim. O recheio é de durian, a fruta do sudeste asiático com cheiro e sabor de chorume. Eu como e faço uma careta feia.

Ele sorri. Espontâneo, cruzando o rosto todo, como eu nunca tinha visto antes. Eu busco ali algum sadismo, mas não encontro. Eu peço desculpa em japonês e deixo de lado o pedaço de bolo. Ele diz que tudo bem, termina de comer e se levanta para ir embora. Depois de amanhã vai se mudar para longe, provavelmente nunca mais nos veremos. Eu tento falar “até mais”em tailandês. As palavras param na porta, que ele já fechou atrás de si.


10.9.07

Num barco em Yokohama

4.9.07

Agression bar

Meu emprego mais rápido até hoje: um dia de duração. Ou melhor, uma noite. Que foi maior que aquela do filme do Antonioni (e bem mais chata também, se é q isso é possível).

Chego eu às 11 da noite ao local, um bar/balada no terceiro andar de um predinho em Roppongi, provavelmente o lugar menos japonês do Japão. Lá tem negões na rua - muitos! - tentando te levar pros clubes de sexo. "Massagistas" chinesas oferecendo trabalho. Muitos branquelos com cara de endinheirados e olhos de demônio.

No bar, dois conhecidos já trabalhavam. Na pista e no balcão, todo mundo veste camisetas estilo havaiano, com colar de flores falsas no pescoço. Idéia infeliz de alguém. Era dia do 5 aniversário, sexta à noite, mais três amigos sentados bebendo no balcão. 2 donos - uma japa com cara de mama e um com jeito de drogado. 3 gerentes - dois iranianos e um macedônio. Quem me contratou foi um iraniano barrigudo q é a cara do Sadam Hussein. Em 5 min, todas as instruções me são passadas e eu já tô na pista atendendo.

A clientela é provavelmente a versão moderna do inferno de Dante. Gaijins gordos, branquelos, usando óculos, chapéus e roupas ridículas, como se estivessem numa praia em Miami. Meninas japas com jeito de envergonhadas e sedentas por dinheiro. Quarentões japas que parecem não ter tido coragem de ir para a sauna de putaria, então foram pro bar.

Eu não sei o que fazer - os clientes pedem as bebidas e eu não consigo entender nada, pq a música é alta e a maioria é japa com inglês estranho. Quando aparece um cliente novo, todos os garçons pulam em cima. Eu olho humilde e carrego os cinzeiros. Oba, uma cliente chegou! Vamos ver o pedido dela...Epa, q isso? Ela tá tentando me lamber! Socorrooooo....

Daí o bar tem uma área VIP, com um garçon tipo galã de filme de terceira. Ele fica lá sorrindo o tempo todo e jogando um jogo bizarro com os clientes chiques. Uma cliente beija o garçon. Horas depois, aparece um cliente gay japa, lá pelos 35 anos. O homem levanta a camisetinha na altura da barriga e começa a causar. Beija o gente iraniano nos lábios, aperta o pau dele. Faz sinal pra mostrar q é gde. E eu esqueço de atender pra ficar olhando.

O iraniano Sadam Husseim me chama e dá bronca. "What are you doing, man? What are you doing?". Q isso, seriado americano? Aquele sotaque, aquela cara. Eu fiquei puto, e mais puto ainda com a segunda bronca. Os outros garçons ficam me dando dicas cmo acontecia na fábrica. Um deles é um brasileiro q abre a boca demais pra falar e parece gay. É feio, mas dá pra dar uns catos. Não, não...Pensando bem...

No final do dia, 11 horas de trabalho, eu tenho q lavar o banheiro e levar o lixo pra fora. É estranho, vc sai às 11h da manhã de um lugar fechado com luzes de balada e música alta e dá de cara com o solzão. Lembrei de uma aula na História, em que o professor falava sobre a construção da noite. Mas minha cabeça tava cansada, tanto q eu paro no Mc pra comprar um Big Mac na promoção - 200 ienes. Começo a refletir q tlvz Big Mac não seja tão ruim assim. Não se custar 200 ienes, o preço de uma lata e meia de Coca. Ops, comparação infeliz.